FILMES DA II GUERRA

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

A NATUREZA DO AMOR

Para Fauze


Amor que é amor é altruísta 

É feito de cuidados 

E atenção 

Afeição superando ciúme, competição   

Pode ter beijo na boca, desejo, união 

Mas é muito mais que isso

É vontade de ver o outro feliz, confiante, capaz de aguentar grandes desafios, vencer limitações, doenças,

Depressão

No dia dia é lembrar da dose do remédio,,

Deixar para o outro a última banana

Lhe dar liberdade para voar

Lhe reservar o melhor sofá

Tomar suas dores nas disputas

Vibrar com as vacinas tomadas

E tantas coisas mais

Se são percebidas, não sei

Amor que é amor

Se alimenta dos próprios gestos de carinho

Não precisa de muito mais que isso

Sabe-se razão maior para a vida

Sorte de quem o viver...


Cecília Quadros

(São Paulo, 01/03/2021)



TORRES DISTANTES

 Torres muito distantes apontam para um céu dramático

Faço uma fotografia e os paraliso no tempo

Cena que jamais se repetirá.

As torres serão as mesmas

Mas banhadas por outra luz ,

Encimadas por diferentes formações de nuvens

a nos lembrar o caráter único de cada momento vivido.

Se o captamos numa foto

Ele provocará sentimentos diferentes

Cada vez que o virmos

Nunca o mesmo do instante cristalizado

Saudade, ternura, sentimentos controversos

Nada nos levará de volta ao que fomos 

em determinada  fase de nossas vidas.

 E reviver ainda que parcialmente um momento lindo já é benção , privilégio 

experiência quase divina.

Torres, nuvens, lembranças, fotografias

Tudo a nos lembrar a fugacidade do tempo, a transitoriedade da vida


Cecília Quadros

(São Paulo, 17/03/2021)



TRANSITORIEDADE

Passo indiferente pelas pedras

Nada me dizem

Amo árvores até as mais desajeitadas

Com seus galhos desalinhados

Flores me encantam em sua perfeição 

Mas não sou obsessiva como Emil Nolde

O que mais me atrai é o céu com suas nuvens migratórias  e  que se transformam num piscar de olhos

Essa mudança, mais vagarosa, vejo nos homens, em tudo que eles criam

e dentro deles mesmos.

Na verdade a natureza toda segue a mesma lei da transitoriedade

E  a nós só resta, conforme o instante,

senti-la  como bela ou como trágica.


Cecília Quadros

(São Paulo, 21/03/2021)



A PAIXÃO DO OUTRO

Eu tinha 20 anos e visitava pela primeira vez meus tios moradores de uma ótima casa de interior em Campo Grande, Rio de Janeiro. Estava encantada com tudo: as primas que acabara de conhecer, já moças, com os tios carinhosos e com a vida simples, mas confortável que eles levavam. Meus maiores interesses na ocasião eram as as conversas com as primas, os passeios pelo bairro e as novas amizades. Tia Stella mal saía da cozinha para agradar com comidas deliciosas o marido, as quatro filhas e as hóspedes de São Paulo: eu e minha irmã só dois anos mais velha que eu. Meu tio aposentado, vaidoso, bem apessoado adorava se manter ativo e conversar com as jovens hóspedes sobre os passeios que faríamos para o centro e praias do Rio, que amava. Tudo era alegria naqueles dias. Sabíamos que ele havia vivido uma história muito triste no passado, mas parece que a vida o havia recompensado com essa família amorosa que formara, não faltando bens materiais para a manter. Não havia dúvida que sua família era a sua paixão. Mas havia outra que ele nos apresentaria no momento adequado. E esse momento chegou. Eu e minha irmã fomos levadas para o seu quintal e bem no meio dele havia uma imensa gaiola cheia de passarinhos. Eu que sempre gostei de ver bichinhos soltos senti um aperto no coração. Os passarinhos tinham espaço, eram bem alimentados, cantavam, será que eram amigos ou procriavam? Enfim tinham tudo menos liberdade. 

Fiquei pensando: como um tio tão bondoso podia se dedicar a esse hobby?

Se eu fizesse alguma pergunta desse tipo talvez ele respondesse que a natureza é inóspita chega a ser cruel com os mais fracos.  Eles, os passarinhos estariam então protegidos e alimentados. Mas meu coração dizia o contrário: não há bem maior que a liberdade. Visitei o quintal poucas vezes, talvez deixando meu tio decepcionado. Talvez ele também pensasse: esses jovens de hoje só 

querem saber de passeios e namorados. Isto é só uma suposição. 

Mas a paixão era dele, eu respeitava. Só estava longe de ser a minha com meus anseios de liberdade.

Cecília Quadros

(São Paulo, 29/03/2021) 



31 DE MARÇO

Celebrar o quê?

Tanta perseguição, violência 

morte de jovens sob a guarda do Estado?

Para mim isso é assassinato

Imprensa calada à força 

Sociedade envergonhada

por continuar a trabalhar, estudar

sob ditadura militar

Medo, muito medo

Como pode alguém acreditar

em progresso, ordem

quando são desrespeitados  valores fundamentais?

Quando tudo é mantido à força à bala

à custa de tantas vidas?

Não há nem nunca houve pena de morte no Brasil

É de chorar, de lamentar

E não de comemorar.


Cecília Quadros

Que viveu tantos anos envergonhada

(São Paulo, 31/03/2021)



VERMELHOU

Vermelho nas unhas

Na calça comprida

Nas flores compradas

Na boca tingida


Cor da minha nova estação 

Um adeus à monotonia

Seja Bem-vinda a paixão .


Perdi o medo do red

De ser centro de atenção 

Vou comprar um vestido bonito

Com a cor que espelha a paixão.


Cecília Quadros

(São Paulo, 05.04.2021)



domingo, 15 de agosto de 2021

TRAVESSIA

Essa travessia começou num distante ano de 66

Éramos jovens, tínhamos a vida toda pela frente

Se tínhamos coragem, nem sabíamos. Tinha um pouco de tudo em nossa bagagem

E aos poucos fomos utilizando todos os itens 

Usamos paciência, perseverança, a tal coragem, amor, superação, dedicação 

Remamos muitas vezes contra a maré

Choramos de amor e de raiva. Chegamos até a nos odiar mas vinha uma nova onda e o ressentimento levava. 

Para tocar o barco era importante 

que fôssemos dois

e assim levamos essa jornada.

O grupo aumentou, aos poucos vieram quatro

Todos voluntariosos, cheios de energia

um pouco demais para um pequeno barco

Ah, não tem sido fácil a travessia...

Muitos líderes para uma pequena nave.

Outros se juntaram, depois construíram seus próprios barcos

E continuamos agora paralelamente

Não sabemos o que nos espera

Mas navegamos atravessando ondas 

E aproveitando as calmarias

Pois assim é a vida

Chegaremos um dia. Mas onde se tem que chegar?


Cecília Quadros

(São Paulo, 17.03.2021)



SUPER LUA

A lua cheia nos espia e convida

A acompanhar seu passeio pelo céu noturno,

Ora se escondendo atrás de densas nuvens

Ora se revelando deslumbrante

rainha da noite majestosa e nua.

Nesse jogo de esconde-esconde

Difícil é manter-se indiferente 

O claro escuro ofusca, tonteia,

Brinca com os sentidos

Nos fazendo reféns de um espetáculo único.

Cada um reage a seu próprio modo

Do estupor a pensamentos melancólicos e profundos

Em mim bate uma sensação que é espanto e melancolia

ante o que é eterno, grandioso e intangível 


Cecília Quadros

(São Paulo, 29.05.2021)



TEMPO DE LUTO

Vivo um tempo de luto 

O país passa de abençoado a desprotegido, triste.

Injusto, parece ignorar seus doentes

seus mortos, seus desvalidos.

Sem saber dos homens,

da pandemia,

Os pássaros cantam

As flores se abrem

O verde se espalha

E a cidade tenta se manter viva

Suas ruas são um convite

para uma pausa,

um pouco de distração.

O frio chega e a chuva não cai 

É um tempo esquisito 

De secura e peso no ar


Cecília Quadros

(São Paulo, 11.07.2021)



KAIRÓS


Tenho cem anos

Já vivo a partida

Vejo coisas que antes não via

Com clareza  antes impossível 

Se perco de um lado

Ganho de outro

Tudo tem consistência

Corrijo conceitos, caminhos

Cada vez mais raros caminhos

Endureço

Me enterneço

Me adenso

Amo fundo fundo

No meu coração

É tempo 

De pegar o último bonde

Não mais esperar

Fazer acontecer


Cecília Quadros

(São Paulo, 06/07/2021)



DIA DOS PAIS

Penso no meu pai que tanto amou a minha mãe 

Que cuidou toda vida do sustento da família 

Que pouco conversava com seus filhos e

Tinha fama de enérgico

Bravo na nossa linguagem

Que era discreto e tremia ao tomar seu café 

O que era a pessoa e o que era representação de um papel?

Juiz, pai, marido exemplar

Chefe de família, pessoa austera

Sem escorregadas como exigia a profissão e a sociedade da época

A pessoa parecia frágil, mas enfrentou com dignidade exemplar e coragem a doença que o derrubou.

Minha mãe também, reconhecendo

Sua dedicação de vida inteira

Ficou ao seu lado até o fim

Passaram juntos com pouca diferença de tempo

E os guardamos na lembrança com muito afeto e respeito

Ninguém é perfeito

Mas dos dois lados temos exemplos de vida, sentimos que deram conta do recado

E deixaram traços e valores que continuam presentes na família,

O maior legado que poderiam deixar.

E aqui deixo todo o meu amor e saudade

Apesar de seu jeito discreto, pai,

Você jamais foi invisível para mim

Quietinha eu o via, admirava, o compreendia vendo-o além da profissão que exercia, como homem, homem sensível

Que tinha um grande amor na vida que obscurecia outros: minha mãe 


Cecília Quadros

(São Paulo, Dia dos Pais, 08.08.2021)

HELI DE QUADROS