Eu tinha 20 anos e visitava pela primeira vez meus tios moradores de uma ótima casa de interior em Campo Grande, Rio de Janeiro. Estava encantada com tudo: as primas que acabara de conhecer, já moças, com os tios carinhosos e com a vida simples, mas confortável que eles levavam. Meus maiores interesses na ocasião eram as as conversas com as primas, os passeios pelo bairro e as novas amizades. Tia Stella mal saía da cozinha para agradar com comidas deliciosas o marido, as quatro filhas e as hóspedes de São Paulo: eu e minha irmã só dois anos mais velha que eu. Meu tio aposentado, vaidoso, bem apessoado adorava se manter ativo e conversar com as jovens hóspedes sobre os passeios que faríamos para o centro e praias do Rio, que amava. Tudo era alegria naqueles dias. Sabíamos que ele havia vivido uma história muito triste no passado, mas parece que a vida o havia recompensado com essa família amorosa que formara, não faltando bens materiais para a manter. Não havia dúvida que sua família era a sua paixão. Mas havia outra que ele nos apresentaria no momento adequado. E esse momento chegou. Eu e minha irmã fomos levadas para o seu quintal e bem no meio dele havia uma imensa gaiola cheia de passarinhos. Eu que sempre gostei de ver bichinhos soltos senti um aperto no coração. Os passarinhos tinham espaço, eram bem alimentados, cantavam, será que eram amigos ou procriavam? Enfim tinham tudo menos liberdade.
Fiquei pensando: como um tio tão bondoso podia se dedicar a esse hobby?
Se eu fizesse alguma pergunta desse tipo talvez ele respondesse que a natureza é inóspita chega a ser cruel com os mais fracos. Eles, os passarinhos estariam então protegidos e alimentados. Mas meu coração dizia o contrário: não há bem maior que a liberdade. Visitei o quintal poucas vezes, talvez deixando meu tio decepcionado. Talvez ele também pensasse: esses jovens de hoje só
querem saber de passeios e namorados. Isto é só uma suposição.
Mas a paixão era dele, eu respeitava. Só estava longe de ser a minha com meus anseios de liberdade.
Cecília Quadros
(São Paulo, 29/03/2021)

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