A força do vento faz as janelas baterem nesta tarde de maio,
com o sol tentando entrar timidamente
no meu quarto.
Mas eu não sei como estará o tempo
quando amar não for mais possível.
E mesmo que venham a me dizer,
eu não darei nenhuma importância,
pois quem enxerga angústia
não vê nada mais.
Devo, assim, olhar o sol e a chuva
enquanto não me torno cego.
Cego, ego, cego, ego.
Por trás de meu ego,
começa um desconsolo,
uma calmaria branda e esparsa,
mas sinistra (e muito).
O dia em que acontecer...
Neste dia eu estarei perdido,
sem nenhum ombro amigo.
Estarei desorientado, solitário.
"Eu tenho medo da solidão".
E nada mais terá sentido.
(pois se não houver achado felicidade no amor,
onde mais poderei encontrar?)
Eu terei perdido a razão, a emoção.
Serei visto como uma pedra
e não terei força alguma para resistir.
Por que existem tragédias?
Por que as coisas boas
(tão difíceis de criar)
desmoronam?
Eu confesso, eu confesso!
(que diminuam minha pena)
— Toda minha vida foi a procura do amor.
E se isso é condenável hoje,
pois bem, que me condenem.
Mas me condenem, sabendo que condenarão um fraco
— um apaixonado.
Antes não tivesse existido,
não houvesse nascido
para não ter que morrer do mesmo jeito que nasci
— asfixiado no cordão de minha própria sorte.
A vida não é mais nada,
nada mais que um solitário andante ser-humano
que nunca chega a lugar nenhum
e nunca sai do seu deserto imenso
que é a solidão.
"Eu tenho medo da solidão".
"Eu tenho medo da solidão".
"Eu tenho medo da solidão".
(Tu és a minha amada)
"Eu tenho medo da solidão".
(Tu és a minha am...)
"Tenho medo da solidão".
(Tu é a...)
"Tenho medo da solidão".
(Tu...)
"Medo da solidão".
(...)
"Da solidão".
"Solidão...dão, dão".
Jorge Quadros
(São Paulo, 14.05.1987)
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